Resenha de Ouro: Os Maias

20/08/2014



O que se faz ao longo dos dezoito capítulos deste romance de Eça é a dissecação da sociedade portuguesa de sua época, que ele se esmera em expor para apontar os males e a degeneração. Vêem-se, assim, no grande quadro social anatomizado pelo realismo de Eça de Queirós: o clero e a sua influência danosa ao pensamento e modo de vida portugueses; as moléstias sociais das média e alta burguesia lisboetas, com seus inúmeros e desastrosos casos de adultério; os ambientes literários e políticos, sua corrupção e tacanhice intelectual. 

Se é fato que a ironia é um dos grandes trunfos para a grandeza da escrita queirosiana, em Os Maias ela serve como potencializadora da tarefa trágica e também tão irônica do Destino. Talvez isso explique, em parte, a força de um romance, que, mais de um século depois de sua primeira publicação, é ainda capaz de atrair tantos leitores e de criar tamanho interesse.

Os Maias conta a estória da família Maia passando por três gerações. Primeiro com Afonso da Maia, depois Pedro da Maia e por fim Carlos da Maia, sendo esse último o foco da narrativa. Carlos é filho de Pedro e neto de Afonso, sendo que o do meio falece em um determinado ponto e o filho fica aos cuidados do avô. Todas as três gerações vivem em um casarão chamado Ramalhete, que tem um simbologia importante percebida ao longo da narrativa. Quando se estabelece no casarão ao lado do avô e já formado em medicina, Carlos se apaixona por Maria Eduarda, sem saber que a mesma é sua irmã e que eles foram separados antes do pai de ambos falecer. O enredo se desenvolve entre dois paralelos, o romance entre Carlos e Maria e as intrigas da sociedade portuguesa do séc. 19.

Embora fale sobre três gerações, o livro pode ser dividido em duas partes: antes e depois de Carlos. A parte que o Pedro aparece é bem mais trágica e menor se levarmos em consideração que os reais protagonistas só aparecem depois que ele morre e na segunda parte. Carlos da Maia tem uma personalidade forte e que costuma impor o que deseja. Na verdade ele pensa mais no que quer, no que é certo. Quando descobre que é irmão de Maria Eduarda, ele deseja levar o romance adiante mesmo assim e não conta logo de cara para ela o parentesco entre eles. Já a Maria Eduarda é mais condescendente em relação aos desejos de Carlos. Ela só toma uma atitude em relação aos dois, quando algo de grave acontece envolvendo a família.


Há pelo menos três anos que eu quero ler Os Maias, desde quando apresentei um trabalho na faculdade sobre esse livro e estudei o romance mais afundo. Eu esbarrei em um grande problema quando fui procurar o livro para ler, a falta de uma edição com texto integral. Vocês vão encontrar o livro Os Maias a torto e a direito, mas só pouquíssimas edições não são adaptações. Acabou que a Zahar este ano lançou essa edição linda, que além do texto integral vem com algumas ilustrações, e eu fiquei desesperada para ler. Só que eu, acostumada com as edições reduzidas, demorei quase 3 meses para ler as quase 600 pgs. Mas calma, não foi só pelo tamanho que demorei, a narrativa dele não facilita as coisas.

Eça de Queirós nesse livro disseca completamente a sociedade portuguesa do séc. 19 e faz isso através de detalhes minuciosos sobre a vida dos personagens, das situações que eles passam e dos ambientes. Eu sou uma leitora que gosta de livros detalhistas, pois acredito que eles favorecem a imaginação, o estar dentro da narrativa, só que tenho que confessar que o Eça leva isso a extremos e que acabei lendo mais lentamente o livro do que gostaria. Além de ser detalhista, ele é extremamente critico e sentimental. Durante a obra toda percebemos alfinetadas contra a politica portuguesa da época, contra os burgueses e contra as relações em geral, de pais com filhos e homens e mulheres por exemplo.


Entre uma critica e outra, esta a mais importante delas e a que sustenta o enredo, o relacionamento incestuoso entre Carlos da Maia e Maria Eduarda. Esse é um assunto delicado e que por mais que você saiba que a relação não deveria existir, fica mexida em alguns momentos, pelo menos eu fiquei. É amor, só que dai você lembra que é um amor errado, entre pessoas que deveriam se amar de uma outra forma, mas que não sabiam disso. Esse pensamento vira um circulo onde o principal ponto é se existe amor errado ou não. Para uma sociedade de aparências, esse podre é um escândalo e ao mesmo tempo um aviso do autor de que ninguém é imune de ter teto de vidro, as pessoas tem seus segredos, sujos ou não, independente da posição social que está.

Por mais que a leitura tenha me cansado em alguns momentos é indiscutível o seu valor enquanto clássico e enquanto um bom livro. Um clássico porque seus temas continuam imutáveis e a identificação com o leitor acontece em pelo menos algum momento da leitura. A questão do romance foi o que me marcou, mas as criticas à sociedade também são pontos que dá para trazer para os dias de hoje. E é um bom livro por você torcer pelos personagens, por apreciar a leitura mesmo ela exigindo mais. A edição que a Zahar fez traz vinte ilustrações e uma explicação sobre O clube do Eça, um clube de admirados do escritor. O obra é um primor, como todos os outros da editora, e merece ser lido. O preconceito que existe ao redor dessa obra precisa acabar, para que mais leitores tenham o prazer de ler essa estória maravilhosa e completa.


*Não sei se vocês se lembram, e eu também me lembro bem vagamente, que a Globo fez uma adaptação desse livro em formato minissérie. Na época, e ainda hoje, ela é lembrada como uma ótima adaptação e que soube passar de forma satisfatória o que o livro apresentava. Segue a chamada para relembrarmos.


Os Maias
Eça de Queirós 
Editora Zahar - Twitter/Facebook

2 comentários:

  1. Oi Denise,
    Eu conheço a trama de “Os Maias” por causa da mine-série, da Rede Globo. Apesar de ter acompanhado e gostado da mine-série, eu sinceramente não tenho muito interessante de ler o livro, por causa do tamanho e da narrativa do autor, que parece ser bem cansativa.

    *bye*

    ResponderExcluir
  2. Adorei sua critica, eu me identifiquei com seus pensamentos em relação ao livro.
    obrigada!!

    ResponderExcluir

Tecnologia do Blogger.