Entrevista com o pesquisador Eric Ruijssenaars

08/05/2014

A autora entrevista que a Pedrazul divulgou é com o pesquisador europeu Eric Ruijssenaars. Ele comenta mais sobre os seus livros, Charlotte Brontë’s Promised Land e The Pensionnat Revisited, as descobertas de suas pesquisas e a polêmica relação entre a Charlotte Brontë e Monsieur Heger, um homem casado que foi seu professor durante a estadia dela em Bruxelas.

A editora confirmou que vai lançar os dois livros do pesquisado aqui no Brasil.


O pesquisador europeu Eric Ruijssenaars, 50 anos, autor de Charlotte Brontë’s Promised Land e The Pensionnat Revisited, falou abertamente sobre assuntos nunca revelados no Brasil. 

Eric vive em Leiden, Holanda, uma cidadezinha magnífica que parece pertencer ao século XVII. É como Amsterdam, mas consideravelmente menor. Ele é acadêmico sênior do New Netherland Research Center, em Albany, Estado de Nova Iorque, fundador da Dutch Archives, especializada em pesquisas históricas, situada também em Leiden, e co-fundador do The Brussels Brontë Group, em 2005. Embora expert em Países Baixos e Companhia das Índias Ocidentais, história holandesa do século XVII, em geral, ele, há 25 anos é um estudioso das irmãs Brontës. 

Para pesquisar sobre elas, o autor viveu um período em Bruxelas, mergulhado na principal fonte de documentos arquivísticos sobre elas naquele período, 1842-1843, que, segundo ele, são os Arquivos de Bruxelles. Ruijssenaars destaca ainda os livros e os jornais antigos das Bibliotecas Reais, em Bruxelas e em Haia, e a Biblioteca da Universidade de Leiden, Holanda, como ricas fontes de pesquisa sobre o assunto. Contudo, o pesquisador, que também é grande fã das Brontës, não ficou somente na Bélgica e na Holanda, mas vagou pelo Brontë Parsonage Museum por várias vezes, em Haworth, percorreu por Thornton, Bradford, em Yorkshire; escrutou tudo sobre elas nos museus British Museum, Ghent Museum of Fine Arts e outros; viajou para os Estados Unidos atrás de informações, pois muitos americanos tinham visitado o pensionato Heger antes de ele ser demolido. 

Portanto, se alguém pode falar com preciosidade sobre o período em que Charlotte e Emily viveram em Bruxelas, Ruijssenaars é uma dessas pessoas. Tudo o que o leitor queria saber sobre Charlotte Brontë e não tinha para quem perguntar, nós perguntamos e Ruijssenaars respondeu. Por que Ruijssenaars foi tão solícito conosco, não sabemos, talvez pelo fato de ele já ter feito pesquisa sobre os holandeses no Brasil (bendito sobrenome holandês!), em Pernambuco, uma colônia que, segundo ele, durou apenas cerca de 25 anos. 

O fato é que ele respondeu tudo sobre as Brontës, principalmente sobre Charlotte, e falou até da seleção brasileira, disse que está com medo da Holanda perder para o Brasil.

Como começou a se interessar pelas Brontës ao ponto de escrever dois livros sobre elas?

O meu interesse pelas Brontës em Bruxelas começou há 25 anos como uma tentativa de impressionar uma namorada por quem eu tinha caído de amor. Naquela época, ela era uma das poucas pessoas amantes de Villette, pois não havia, por parte dos fãs das Brontës, quase nenhum interesse por Villette e pelo tempo que as irmãs Brontës viveram em Bruxelas, ao contrário de agora. Bem, li o livro e me apaixonei pela personagem Lucy Snowe. Achei que a Bruxelas das Brontës fora ainda pouco pesquisada, então eu decidi fazê-lo eu mesmo. 

Você me disse que essa parte da vida das Brontës tinha sido negligenciada. Por quê? 

Eu sentia falta de um trabalho investigativo detalhado da vida das Brontës em Bruxelas, pois faltavam informações sobre esse período, sobre o que Charlotte e Emily fizeram por lá, isto é, o que sabíamos era muito fragmentado. Fui em busca de respostas e descobri os lugares nos arredores de Bruxelas, nos quais Charlotte se inspirou para escrever ‘Villette’ e ‘O Professor’. Também fiz um levantamento da vida cultural na cidade no período de 1842-1843, nos quais Charlotte também se inspirou em vários trechos da obra, incluindo a identificação das pinturas mencionadas em Villette, além, é lógico, de tudo que envolveu Monsieur Constantin Heger. Tudo isso revelou que Villette, de fato, é uma obra totalmente autobiográfica. 

Em Charlotte Brontë's Promised Land e The Pensionnat Revisited você mostra a Bruxelas de Villette e o Pensionnat Heger, respectivamente, onde Charlotte encontrou sua paixão. Fale um pouco sobre suas obras.

O pensionnat Heger ficava na Rue d' Isabelle. Infelizmente foi demolido, em 1910. Sobre meus livros, em 1993, a Sociedade Brontë da Europa, pela primeira vez, organizou uma excursão para Bruxelas. Eu fui e na ocasião palestrei sobre a minha pesquisa. Mais tarde, no mesmo ano, fui premiado com a Bolsa BS Centenário. Em 2000, eles publicaram o meu primeiro livro. 

Em 2003, foi publicado o segundo. Neles eu descrevo a Bruxelas das Brontës, como eram os lugares, e, uma coisa muito legal durante a pesquisa para o livro foi que eu encontrei uma dúzia de artigos antigos, escritos por pessoas que estavam no pensionnat antes de ele ser demolido. Estes escritos estão publicados na íntegra. Cerca de seis anos atrás, eu encontrei uma foto de uma das pinturas específicas que Charlotte menciona em Villette.

Villette é, de fato, a reprodução da vida de Charlotte Brontë? 

Sim, totalmente autobiográfico. Posso afirmar que Charlotte descreveu com precisão o antigo bairro onde ficava o pensionnat. Tem uma parte em Villette que Lucy Snowe, desesperada, entra numa igreja e se confessa com o padre Silas. Essa confissão é autobiográfica. No livro também ela vai ver uma exposição, no capítulo ‘Cleópatra’. Ela, de fato, foi para uma exposição de fotografias em Bruxelas. O passeio que ela fez com Monsieur Paul Emanuel também foi real e a paixão de Lucy por ele, lógico, foi a paixão dela por Monsieur Constantin Heger, além de centenas de outros fatos. 

Em sua opinião a paixão de Charlotte por Constantin foi correspondida? 

Recentemente uma escritora holandesa / belga publicou um romance sobre isso (em holandês), e ela mostra os dois se beijando. Isso ofendeu várias pessoas que acreditam que ambos não fariam uma coisa dessas. Quem sabe? Nós podemos apenas especular. Embora se possa afirmar que Charlotte, de fato, se apaixonou por Monsieur Heger, o resto é especulação. O livro que preenche essas lacunas é da autora Jolien Janzing, De Meester.

Existe evidência de que Constantin Heger respondeu às cartas de Charlotte? 

Não há provas físicas de que ele tenha escrito, mas elas podem estar perdidas. As pessoas gostam de pensar que Charlotte pode tê-las enterrado como em Villette. Existem quatro cartas conhecidas de Charlotte para Heger. Em uma delas, ela se refere a uma carta que ele escreveu. Portanto, mesmo não havendo evidência física, ele deve ter escrito, senão, por que ela falaria da carta? De qualquer forma, um dia elas podem aparecer. Gostaria de destacar que ela pedia a ele uma carta, sempre pedia, quase implorava, aliás, tudo o que ela podia fazer era pedir uma carta, como todos sabemos, o amor é cego, e ele pode ter respondido sim. 

Você me falou sobre uma outra carta perdida. Qual? 

Eu acredito que havia também outra carta de Charlotte para Heger, uma quinta carta, que também se perdeu . Estamos atrás dela. Na verdade, meu amigo Brian Bracken, que descobriu o manuscrito perdido de Charlotte, L'Ingratidão, me contou sobre a evidência dessa quinta carta de Charlotte. 

Charlotte era uma pessoa melancólica por natureza, você acredita que ela escolheu um homem casado para amar numa tentativa inconsciente de manter aquele estado de tristeza? Pois, de fato, ela sabia que se tratava de um amor impossível. 

Eu acho que, realmente, não se pode escolher por quem se apaixonar. Também acredito que ela teria gostado de se apaixonar por um homem solteiro. De qualquer maneira, era um amor impossível, você tem razão. Não podemos nos esquecer de que Monsieur Heger era um homem casado, com algumas crianças muito jovens. Muito bem casado, aliás. Contudo, como falei, não escolhemos por quem nos apaixonamos, mas Charlotte deve ter sabido que, de fato, era um amor totalmente irrealista. E o mais importante, claro, é que ela produziu um maravilhoso romance com isso tudo, pois Villette é espetacular. Muito bom ouvir agora que existe uma tradução brasileira. 

Você acredita que pode ter havido algum contato físico entre Charlotte e Monsieur Heger? Insisto: é possível que ele a tenha amado também? Qual é o seu sentimento sobre isso? 

Concordo com Jolien Janzing, que escreveu De Meester, que pode ter havido um beijo. É possível. Mas, não há ainda como afirmar isso. No entanto, eu não acho que ele a amava. Ambos eram grandes mentes intelectualmente atraídos um pelo outro. Mas, fisicamente ela não era uma mulher atraente. 

Elizabeth Gaskell, na biografia de Charlotte Brontë, omite a paixão de Charlotte por M. Heger, contudo, sabemos que Gaskell o visitou, que leu as cartas restauradas por sua esposa, pois ele as tinha rasgado e jogado no lixo, então, por que a Sra. Gaskell falhou? Você acredita que foi a pedido de Patrick Brontë ou de Arthur Bell Nicholls? 

Não. O pai e o marido de Charlotte não influenciaram a Sra. Gaskell em que escrever, isso é um fato. O irmão Branwell, o reverendo Patrick Brontë e Arthur Bell Nicholls foram três homens que sempre tiveram uma má reputação, em parte, graças a Sra. Gaskell. Eles foram os bodes expiatórios. A Sra. Gaskell, na biografia, cita seletivamente partes das cartas. Ela fez tudo o que podia para não parecer que Charlotte tinha uma paixão por Heger. Ela tentou fazer de Charlotte uma santa. E, é claro que a revelação dessa paixão teria danificado a reputação de Charlotte. 

Imagina, naquela época, se as pessoas soubessem que ela havia se apaixonado por um homem casado e, ainda por cima, um católico? Seriam dois escândalos para uma Inglaterra protestante. Pode ser também que Charlotte sequer admitisse para si mesma que ela fosse apaixonada por ele. Portanto, na biografia, que tem seu peso, é lógico, a Sra. Gaskell culpou muito da infelicidade de Charlotte, demonstrada nas cartas, aos problemas do seu irmão, o Branwell. Dessa forma, ela conseguiu esconder o problema real.

Que tipo de homem era Constantin Heger? 

Ele está descrito em Villette. Monsieur Paul é o protótopo dele, cem por cento.

Sabemos que Monsieur Paul Emanuel foi inspirado em Constantin Heger, mas, em sua opinião, Mr. Rochester também foi inspirando nele?

Sim. Até certo ponto Rochester foi inspirado em Heger.

Como Eric Ruijssenaars, o pesquisador, enxerga Charlotte Brontë? E como Eric, o fã, a vê? 

É difícil gostar de Charlotte como pessoa. E há muito tempo eu estou um pouco zangado com ela por saber como ela escreveu, em Villette, sobre os flamengos e os católicos. Mas, quem somos nós para julgar? O importante é que ela era uma grande artista. 

Madame Heger e Constantin foram casados por quanto tempo? É verdade que ela foi a segunda esposa de Constantin? 

Ele tinha sido casado por alguns anos, mas a sua primeira esposa morreu, em 1835. Ele logo se casou com Madame Heger e ficaram juntos até a morte. Então, eles ficaram casados por mais de cinquenta anos. Ela sempre, e injustamente, teve má reputação. Mas, acho que ela se comportou muito bem e de forma discreta. Ela era a diretora da escola, além de esposa dele. Eu lhe pergunto: o que você faria em sua posição, visto que a inglesa havia caído de amor pelo seu marido? 

Após a morte de Charlotte, fala-se que Heger mostrou com orgulho as cartas para os turistas que passavam para vê-las? Isso é verdade? 

Sim. Em anos posteriores, Heger conversou com visitantes sobre Charlotte. Isso mostra que ele tinha orgulho de ter sido o mestre dela e até de tê-la tornado uma escritora melhor. Os anos que ela passou em Bruxelas foram fundamentais para a sua carreira como autora. Sem as aulas de Monsieur Heger ela não teria escrito tão bem. Ele era professor de literatura francesa, então Charlotte estudou grandes nomes, como Victor Hugo, por exemplo, e muitos outros. 

Existe alguma evidência de que Monsieur Heger e a esposa leram Villette? 

Não há evidência física, mas eu acredito que eles leram sim. Em 1855, havia duas traduções piratas de Villette, publicadas em Bruxelas, e havia apenas uma tradução oficial em francês. 

Sabe se o Museu Brontë Parsonage, em Haworth, está liberado para visitação? Já esteve lá?

O BPM ainda está lá. Eu o visitei várias vezes. Minha última visita foi em 2004. 

Você fez um trabalho de investigação detalhada para suas obras, mas em sua opinião, ainda há coisas a serem descobertas? Tem intenção de escrever mais sobre as irmãs Brontës? 

Certamente haverão novas descobertas. As cartas de Heger para Charlotte, por exemplo. Seria maravilhoso se aparecessem. Eu ainda tenho uma pesquisa inédita, mas não é suficiente para outro livro. Espero que meu amigo Brian Bracken escreva um livro com sua pesquisa, e daí vou inserir a minha.

Qual foi a última descoberta feita sobre Charlotte Brontë e quais foram as primeiras, em Bruxelas? 

A última descoberta foi feita por meu amigo Brian Bracken, que também é um grande pesquisador. Brian vive em Bruxelas, o que torna tudo mais fácil, é claro. Foi ele quem descobriu o manuscrito perdido Charlotte, L'Ingratidão, que ela escreveu para sua fonte inspiradora, Monsieur Heger. L'Ingratidão foi escrito por ela em 16 de março de 1842, é o primeiro conhecido pedaço de lição de casa dada a ela por Heger. Brian o encontrou no Musée Royal de Mariemont um século depois da última pessoa ter ouvido falar nele, que foi em 1913, ocasião em que foi dado a um rico colecionador belga pelo filho de Heger, Paul. 

É uma pequena história, na realidade um conto em francês, com erros gramaticais, é óbvio, ela ainda estava aprendendo. Quanto às primeiras descobertas, a escritora Sue Lonoff foi a primeira pesquisadora sobre Charlotte e os ‘devoirs’ (deveres de casa) que ela escreveu para Monsieur Heger. É absolutamente incrível o progresso feito desde então. Talvez você possa conversar com Sue Lonoff.

Pretende visitar o Brasil? 

Hoje em dia, quando eu e Brian Bracken falamos sobre o Brasil, claro, pensamos imediatamente sobre a próxima Copa do Mundo. Há uma grande chance das seleções do Brasil e da Holanda jogarem uma contra a outra após a fase de grupos. Se o Brasil ganhar no seu grupo e nós ficarmos em segundo no nosso grupo, atrás da Espanha, não vamos ter nenhuma chance, eu tenho medo. Quem sabe iremos aí no lançamento dos meus livros na tradução brasileira!

2 comentários:

  1. Olá Denise,

    Muito legal essa entrevista, muito bom saber um pouco mais sobre a autora CharlotteBrontë...abraços.

    devoradordeletras.blogspot.com.br

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  2. Boa a entrevista, ainda mais porque eu não conhecia a autora.
    Bjs, Rose.

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