Entrevista com Helen MacEwan

07/05/2014

A editora Pedrazul postou no seu facebook duas entrevistas muito interessantes sobre autores que escreveram livros sobre as Irmãs Brontës e decidi postá-las aqui no site também. A primeira delas é com a escritora britânica Helen MacEwan, que escreveu o livro The Brontës in Brussels, um relato mais detalhado da passagem da Charlotte e Emily por Bruxelas. A editora confirmou que vai lançar ele no Brasil.


A escritora britânica, autora de The Brontës in Brussels, lançado em maio de 2014 na Europa, faz um relato fascinante e completo da estadia de Charlotte e de Emily em Bruxelas cinco anos antes de se tornarem best-sellers. Nesta entrevista, MacEwan é categórica em afirmar que dois dos quatro romances de Charlotte, ‘Villette’ e ‘O professor’, foram integralmente baseados em seu ‘feitiço’ no exterior, como ela denomina o amor proibido de Charlotte por Constantin Heger. Segundo MacEwan, essa paixão foi fundamental para ela como escritora, pois lhe deu experiência e sofrimento para compor todas as suas obras. Na entrevista que você confere a seguir, ela ainda afirma que o sentimento de Brontë por Heger foi obsessivo ao ponto de ela implorar para ser correspondida. 

Todo fã de Charlotte Brontë tem curiosidade a respeito das cartas que ela escreveu para Monsieur Heger. Em seu livro constam as cartas na íntegra? 

Sim. Estão descritas as quatro angustiantes cartas que ela mandou para M. Heger. Um detalhe importante é que as cartas desmentem a imagem comum de uma Charlotte Brontë maternal e puritana. Também estão inclusos no livro os mapas da época, os caminhos traçados por ela, em Villette. No livro eu evoco o assombro de um tempo e de um lugar que veio para atemorizar e despertar as Brontës, entretanto, foi o assombro mais proveitoso de uma autora que fez de suas próprias desventuras obras belíssimas.

Como começou seu interesse pelas Brontës? 

Tornei-me interessada nas Brontës quando li Jane Eyre ainda criança. Foi o primeiro romance adulto que eu li. Lembro-me que achei superior a tudo o que eu estava lendo naquele momento. Tal como acontece com tantas pessoas que são fãs das Brontës, fiquei encantada com o retrato real da sua vida familiar, seus afetos e sua literatura. Essa combinação foi irresistível. Com as irmãs Brontës, especialmente com Charlotte, você sente como se a conhecesse como pessoa, pois seus romances são muito autobiográficos, principalmente Villette. 

Constantin Heger respondeu às cartas de Charlote, você fala disso em sua obra?

Constantin Heger respondeu a algumas das cartas de Charlotte, mas suas respostas não sobreviveram. Anos mais tarde, a filha de Heger disse que sua mãe, Claire Zoë Heger, escreveu para Charlotte pedindo para ela escrever com menos frequência para seu marido, e, contudo, quando Charlotte continuou a escrever obsessivamente, Heger parou de respondê-la. Em 1913, a família Heger, finalmente, depois de cerca de 60 anos, doou as cartas de Charlotte destinadas a Monsieur Heger para a Biblioteca Britânica. Até então tinham ficado na família. Como todas as pessoas envolvidas estavam mortas: Constatin Heger, o viúvo de Charlotte, a própria Madame Heger, os filhos de Heger foram persuadidos de que era a hora das cartas voltarem à Grã-Bretanha, de modo que, em 1913, elas foram traduzidas para o Inglês e publicadas. Aí as pessoas perceberam a extensão da obsessão total de Charlotte para com seu professor. 

Você disse ‘obsessão’. É dessa forma que define o sentimento de Charlotte por Monsieur Heger? 

Sim. Em minha opinião Charlotte tinha uma verdadeira obsessão por Heger, mas ele não a amava. O fato de suas cartas para ela não terem sobrevivido é uma pena, pois não podemos ter certeza de seus sentimentos, mas não há nenhuma evidência de que ele estava apaixonado por ela. No entanto, diferentes estudiosos das Brontës têm opiniões contrárias, alguns dizem que o amor era recíproco. 

Não acha a palavra obsessão muito forte?

Não, de forma alguma. Dois anos depois que ela saiu de Bruxelas, ela ainda pensava nele dia e noite. Ele era um homem casado, com seis filhos, e ela estava suplicando-lhe que escrevesse para ela, dizia que as cartas dele eram a única coisa que fazia com que a sua vida valesse a pena. No começo, ele a incentivou a escrever com menos frequência, e, no final, ele cessou de escrever por completo. Ela ficou extremamente deprimida por um tempo, mas depois levantou a cabeça e escreveu Jane Eyre. 

Sabemos que Villette foi escrito dez anos depois que ela saiu de Bruxelas. Você acredita que ela ainda estava apaixonada por Monsieur Heger ou foi apenas um relato de sua própria vida? 

De fato Villette foi escrito 10 anos depois que ela saiu de Bruxelas, e ela, obviamente, ou ainda estava apaixonada por ele ou queria visitá-lo. Temos que lembrar que ela só se casou um ano depois do lançamento de Villette. Talvez ela esperasse que ele o lesse, que Madame Heger também o lesse e isso, de alguma forma, acabasse ruindo o casamento dos dois. Porém, se o leram, fizeram isso em 1855 quando Villette foi traduzido para o francês, mas, ela infelizmente morreu em março de 1855 sem, sequer, ter uma resposta. 

Tenho outra suposição baseada no desfecho de Villette: a de que ela pode tê-lo escrito para virar uma página de sua vida. O que acha?

Sim. É uma ótima especulação, mas continuo achando que ela ainda era apaixonada por Monsieur Heger quando o escreveu. De fato ela aceitou se casar com Arthur Bell Nicholls apenas quando narrou a sua própria história de amor e colocou um ponto final nela. 

Lembrando que Nicholls sequer apareceu nessa história, não é? 

Sim. Ela o deixou de fora, pois não o amava, sempre amou Monsieur Heger.

Como Madame Heger lidou com isso, pois ela tinha conhecimento da paixão de Charlotte por seu marido, não tinha? 

Madame Heger se comportou muito bem. Quem não se comportou bem foi Charlotte, aliás, se comportou muitíssimo mal. Em Villette, ela se vinga de Claire Zoé, em especial, convertendo-a em uma personagem completamente diferente do real. E, possivelmente, em Jane Eyre, ela também se vingou, transformando-a na louca Bertha e trancando-a no sótão. 

Você comentou que Charlotte odiava Madame Heger, isso não é muito forte?

Ela odiava a sua rival ao ponto de se vingar dela em quase todas as suas obras como falei: ‘Villette’, ‘O Professor’ e ‘Jane Eyre’, pois há muito de Monsieur Heger em Mr. Rochester, disso eu não tenho nenhuma dúvida, e Bertha foi inspirada em Clare Zoë. Aliás, esta só ficou de fora em ‘Shirley’, pois, nessa obra não existe nenhuma grande vilã feminina. 

Em se tratando de Villette, daquela época, o que ainda está de pé em Bruxelas? 

As pessoas que leram Villette, quando vão a Bruxelas, se divertem com isso, pois alguns lugares são fáceis de identificar. A igreja protestante que Charlotte foi está exatamente como era, na Rue du Musée. Em Villette, ela muda os nomes dos lugares de forma bastante travessa e o leitor tem que descobrir de qual lugar que ela está falando. O Royal Park é um deles. Existe um capítulo inteiro de Villette, no qual Lucy Snowe, drogada por Madame Beck, anda errante por um parque ouvindo música. O local desse concerto é o Royal Park. Em Villette, ela também vai ao teatro com a Sra Bretton e o doutor John. Este teatro é o Monnaie, ainda está de pé, assim como muitos outros lugares. 

2 comentários:

  1. Adorei a entrevista!!!!!!!!!!!!
    Bjs
    http://eternamente-princesa.blogspot.com.br/

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  2. Mais uma entrevista que veio me ajudar a conhecer um autor, no caso autora, que eu ainda não conhecia.
    Bjs, Rose

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