Resenha: O começo de Tudo

24/03/2014


O garoto de ouro Ezra Faulkner acredita que todo mundo tem uma tragédia esperando ali na esquina – um encontro fatal depois do qual tudo o que realmente importa vai acontecer. Sua tragédia particular esperou até que ele estivesse preparado para perder tudo de uma vez: em uma noite espetacular, um motorista imprudente acabou com a perna de Ezra, com sua carreira no esporte e com sua vida social.

Depois que perdeu o favoritismo ao posto de rei do baile, Ezra agora almoça na mesa dos losers, onde conhece Cassidy Thorpe. Cassidy é diferente de qualquer pessoa que Ezra tenha encontrado antes – melancólica e com uma inteligência mordaz.

Juntos, Ezra e Cassidy descobrem flash mobs, tesouros enterrados e um poodle que talvez seja a reencarnação do Grande Gatsby. À medida que Ezra mergulha nos novos estudos, nas novas amizades e no novo amor, aprende que algumas pessoas, assim como os livros, são difíceis de interpretar. Agora, ele precisa considerar: se uma tragédia já o atingiu, o que poderá acontecer se houver mais infortúnios?

 O Começo de Tudo é um livro poético, inteligente e de cortar o coração sobre a dificuldade de ser o que as pessoas esperam, e sobre começos que podem nascer de finais trágicos.

Ezra Faulkner era a imagem do garoto americano bem sucedido, aquele que passa pela vida aproveitando o que de melhor ela tem a oferecer. Namorado de uma garota linda e popular, um dos melhores jogadores de tênis da escola e com várias propostas de universidades renomadas em vista, ele perde tudo isso em um acidente de carro. Na noite do acidente ele descobre que sua namorada o traia e agora que ele não poderá mais jogar tênis, isso é só um ponto na lama que Ezra está enterrado. Tendo que voltar a uma vida que parece não lhe pertencer mais, uma menina lhe mostrará uma nova perspectiva de tudo isso. Com Cassidy, Ezra perceberá que o homem que ele era antes não existe mais, mas isso não significa que ele não possa ser um novo homem e melhor.

O livro é narrado em primeira pessoa, pelo protagonista Ezra. A primeira coisa importante que eu notei nele foi o quanto sua vida antes do acidente era perfeita, mas não de um jeito bom. As amizades dele eram vazias e o relacionamento com a namorada não tinha profundidade. A impressão é de que o acidente não só o afetou em questões de como ele vai lidar com a deficiência, mas também o fez repensar a sua vida e prioridades. Se ele realmente queria ser esse menino de ouro superficial ou um cara que preza as relações verdadeiras. A narrativa tem uma particularidade, esta no presente por um tempo, mas depois percebemos que é o passado. O Ezra está num ponto da vida dele agora e decidiu contar esse fato em específico pra gente.

A Cassidy é o outro ponto importante desse enredo. Acredito que muitos não vão gostar dessa personagem, como eu, por ela ser escorregadia demais. Ela é inteligente e criativa de uma forma diferente das outras meninas da sua idade, ela também apresenta uma sabedoria de vida que só quem já teve perdas ou passou por tragédias possui. Sem falar que ela aproveita a vida como poucos e é essa energia que muda o prumo do Ezra, então a principio ele são perfeitos juntos, mas coisas acontecem e ela se torna uma menina evasiva, que não explica muitas coisas da sua vida e deixa o Ezra no vácuo em alguns momentos. Outro personagem interessante é o melhor amigo do Ezra, Toby, que tem uma tragédia particular que é cômica e triste ao mesmo tempo.

Ela tinha gostinho de tesouro escondido e balanços e café. Tinha gostinho de fogos de artifício, de coisa que a gente podia apenas chegar perto, mas nunca ter.

Desde quando eu li a sinopse desse livro eu fiquei interessada nele e tinha a impressão de que iria gostar da leitura. Eu gosto de livros onde um dos protagonistas, ou os dois, é deficiente, ou fica como é o caso deste livro, porque sei que reflexões e ensinamentos de vida poderão ser tirados do enredo. Com esse livro foi assim, mas não de forma escrachada, a ponto de ser um livro de autoajuda. Longe disso, as reflexões aqui são diretas e sutis na medida certa. A autora teve sensibilidade e entendimento de público, por ser voltado para o jovem adulto, se ele tivesse muitas lições de moral poderia ter um efeito contrário, mas do jeito que foi escrito é para atingir o leitor sutilmente e para que a gente perceba o crescimento do Ezra durante a narrativa e torça por ele.

Pensar num livro depois de terminar ele é o mesmo que dizer que alguma coisa dele ficou em mim, e quando eu terminei O começo de Tudo aconteceu isso. Em algumas partes eu tive pena no personagem, mas o aprendizado e as descobertas que ele faz são motivadoras e me fizeram perceber que pena numa situação dessas não vale nada, e eu passei a sentir admiração. A narrativa em primeira pessoa te dá essa oportunidade, o de vivenciar o que o Ezra está passando, então você vai sentir o que ele sente, vai aprender o que ele aprende e vai viver o que ele vive. O relacionamento dele com a Cassidy é normal, como o de qualquer casal. E nele terão algumas partes relacionadas a sexo, mas bem de leve, só para nos lembrar que o Ezra tem a capacidade de ter uma vida normal, independente do que aconteceu com ele.

O livro é muito real, e ao mesmo tempo que eu queria muito ler, eu tinha receio que a autora transformasse o personagem num pobre coitado e passasse a mensagem errada em relação a superação. Já li livros assim, onde a autora fragilizou tanto a pessoa com a deficiência que eu não conseguia visualizar ele tendo uma vida. Mas aqui é completamente diferente, o Ezra tem os altos e baixos e os baixos é que fazem com que a gente consiga, de fato, ver ele. Aceitar uma condição que você não quer é difícil, requer tempo e apoio familiar, e às vezes você vai ficar com raiva do mundo e de todos, isso faz parte, e o personagem ter esses momentos firmou ainda mais a realidade na estória. A autora não parou a vida dele, ela colocou ele em situações normais com os amigos, namorada e família e isso foi para mostrar o óbvio, a vida continua, de um jeito ou de outro, você estando preparado ou não.

A leitura desse livro foi muito boa, nossa, li rapidinho e adorei. A Cassidy faz parte do aprendizado do Ezra e por mais que eu não tenha gostado dela e de como tudo terminou, ela é importante para ele e para o livro. A narrativa tem uma crescente interessante, mas depois a gente percebe que ela é só um trecho na vida do protagonista e que o tempo da narrativa é outro. O final do livro pode não agradar muitos, por não ser tão feliz quanto a gente quer ou imagina para os personagens, mas foi um bom final e o principal, coerente com o enredo. Esse é um livro para a gente tirar pequenas coisas e com o final desse jeito, entendemos que algumas pessoas entram nas nossas vidas para abrirem nossos olhos, apenas isso. Com personagens envolventes, uma narrativa gostosa e inteligente, O começo de Tudo é uma surpresa que muitos vão gostar de ter.

Ainda acho que a vida - independente do quão comum seja - de qualquer pessoa tem um ponto trágico e único, depois do qual tudo o que é realmente importante vai acontecer.

O Começo de Tudo
Robyn Schneider
Editora Novo Conceito - Twitter/Facebook

8 comentários:

  1. Denise, estou com esse livro lá em casa mas ainda não o li, passando outros lançamentos da NC na frente. Que bom que li a sua resenha, pois quando eu terminar os outros, vou ler este!

    Beijos,
    Caroline, do criticandoporai.blogspot.com

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  2. Oie, tudo bom?
    Achei a narrativa desse livro bem parecida com o livro Como eu Era Antes de Você e isso só me deixou mais curiosa para ler O Começo de Tudo. Gosto de histórias assim e acho que ser escrito em 1º pessoa só aproxima o leitor da história.
    beijos!
    http://livrosyviagens.blogspot.com.br/

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  3. Gostei da dica de leitura ;)
    Bjs
    http://eternamente-princesa.blogspot.com.br/

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  4. Olá Denise,

    Esse livro esta na minha lista de espera de leitura e estou bastante curioso, ainda mais depois da sua excelente resenha....abraços.

    devoradordeletras.blogspot.com.br

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  5. AMEI a resenha!!!
    Tô precisando de um livro assim, pra refletir mesmo... Pulando já na frente!!
    Adorei mesmo!

    Bjkas

    Lelê Tapias
    http://topensandoemler.blogspot.com.br/

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  6. Recebi esse livro em parceria com a Novo Conceito, mas não fazia ideia de que o livro trazia a temática da deficiência. Eu tenho uma deficiência congênita, então, por essa razão, lido normalmente com ela. Já quem adquire uma deficiência ao longo da vida é um pouco mais difícil de se adaptar, mas nada impossível. Se a pessoa aceitar a sua nova condição e buscar meios de viver da melhor forma possível nessa nova condição, nada impede de que ela volte a ser feliz, com o diferencial de que ela terá vivido os dois lados da moeda e estará bem mais forte do que antes.
    Fico contente de que a autora tenha tido jeito na hora da construção do personagem, pra que não ficasse apelativo ou sofrido demais. Porque de fato ter uma deficiência não é o fim do mundo ou algo terrível, tenebroso e essas coisas todas melancólicas. Tudo depende do modo como a pessoa com deficiência encara e lida com a sua condição. E isso pode-se aplicar às pessoas sem deficiência. Algumas decepções parecem minar para sempre a força de algumas pessoas e elas não conseguem visualizar um pontinho de luz no caminho. No final das contas, o que vale é saber lidar com as consequências das nossas vivências.

    Um abraço!

    Sacudindo Palavras

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  7. Não achava que esse livro englobasse tudo isso. Ele estava aqui no cantinho da estante para um dia, quem sabe, ser lido. Agora ele sairá de lá! Tua resenha me animou e muito para lê-lo!

    Beijos,
    Myris
    http://www.nacabeceiradacama.com.br

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  8. Oi Denise. Esse livro parece ser daqueles que nos proporciona uma reflexão após a leitura. Quero ler! Amei a resenha.
    Beijos
    All My Life in Books - Aguardo sua visita!

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