Resenha de Ouro: A moradora de Wildfell Hall

27/02/2013


Em uma época onde era considerado inapropriado para uma mulher escrever livros, Anne Brontë concebe um dos primeiros libelos feministas da literatura. Foi preciso uma jovem, morrendo de tuberculose, para levantar a questão do papel da mulher em uma Inglaterra imersa na Era Vitoriana. 

"A Moradora de Wildfell Hall", publicado em 1848, é considerado um dos primeiros livros a denunciar a submissão feminina na sociedade inglesa. Para Anne Brontë, autora da obra, a mulher deveria ser dona do próprio destino, o que implica em um novo posicionamento em relação ao homem. 

Para a autora, a mulher ideal é Helen, uma decidida jovem que recusa vários pretendentes ao casamento. Ela se apaixona por Arthur Huntingdon, apesar dos protestos de sua tia, com quem mora. Por isso, Helen não está segura de que tomou a decisão certa. Porém, Helen não ficaria em dúvida por muito tempo, já que, depois de casada, seu marido se mostra propenso a retomar a vida desregrada dos seus tempos de solteiro. 

Ela se vale da religião para tentar corrigir os hábitos libertinos de Arthur, que por sua vez os justifica como uma espécie de carpe diem. Nesse ínterim, nasce o primeiro filho do casal.

A moradora de Wildfell Hall é um romance epistolado, narrado em primeira pessoa por dois personagens, o Gilbert Markham e a Helen Graham. O livro é marcado por dois tempos, presente e passado, intercalando entre os protagonistas. Ele começa com as cartas do Gilbert para um amigo contando como conheceu a misteriosa viúva Senhora Graham, Helen, e o burburinho que ela causou ao chegar na pequena vila e morar na velha Wildfell Hall. Depois um pouco do meio do livro, a Helen narra o seu casamento com Arthur Huntingdon e a sua ida para Wildfell Hall e por fim, o Gilbert volta para narrar o desfecho.

O livro é como se fosse o Gilbert descrevendo a sua relação com a Helen, ele precisa primeiro contar como a conheceu, como o relacionamento se desenvolveu e depois como terminou. Embora seja ele quem permeia a estória, a narrativa da Helen é a mais importante, pois pode não parecer, mas ela é a protagonista. E além do mais, as revelações e as cenas mais importantes acontecem quando ela narra e tem relação direta com a mesma. Nessa sinopse do skoob não tem, mas na do livro explica melhor o que seria a grande questão do livro, o adultério. A Helen na verdade abandonou o Arthur e foi viver em outro lugar com uma nova identidade. Numa época que nem se pensava nisso a bravura da Helen se sobressai, na verdade é mais o seu instinto de sobrevivência.

Dos três livros das Brontes que eu já li, esse é o que tem a linguagem mais difícil, isso no sentido de saber o que algumas palavras queriam dizer. A Anne utilizou palavras mais rebuscadas e isso dificultou a leitura fluir. Ele é pequeno, mas atrasei um pouco a leitura dele por causa disso. Se por um lado ela usa palavras complicadas, as descrições são menos minuciosas do que a das irmãs e o amor não é tão arrebatador e extremo. São raros as cenas de contato físico e quase nenhuma descrevem o ato em si. A preocupação da Anne era que o amor não fosse tão carnal, e sim expressado com outros tipos de ação.

Mas sorrisos e lágrimas são semelhantes para mim, nenhum deles estão confinados a quaisquer sentimentos em particular: frequentemente choro quando estou feliz e sorrio quando estou triste.

Eu costumo pensar que clássicos tem várias qualidades que se destacam dos outros livros, mas duas delas, para mim, são as mais importantes: temas atemporais e inovação. Quando a Anne escreveu um livro sobre adultério e abuso ele foi considerado improprio para moças lerem. O casamento era uma constituição imortal, não importa se os envolvidos fossem felizes ou não. Daí, vem uma mulher escritora, também improprio na época, e escreve sobre uma heroína que larga o marido para tentar uma vida melhor em outro lugar e o melhor, quase se envolve com outro homem. Esse foi um dos primeiros livros escritos sobre o assunto.

Quanto a temas atemporais, existe assunto mais atual do que abuso domestico? Adultério? Ou o peso das escolhas erradas que fazemos? A moradora de Wildfell Hall é exatamente sobre isso. A Helen casa com um homem de caráter duvido pensando que com o tempo e amor ela poderia mudá-lo, mas o tempo só o revela um homem bem pior. As consequências disso são devastadoras e ela tem que lidar com elas da melhor forma que consegue, sendo as vezes, julgada por alguns. Todos os dias sabemos de casos assim, isso para não dizer conosco.

É sempre complicado fazer indicações de clássicos, principalmente porque sei que eles não são os favoritos das pessoas. Porém, sempre os leio e faço resenhas aqui no site para que vocês vejam que apesar de terem sido escritos em épocas tão longínquas, seus assuntos são atuais e vai ter algo com o que você se identificar. Melhor ainda, ensinamentos e reflexões para a sua vida. Com A moradora de Wildfell Hall acontece isso, ele não é um livro que você indique para uma determinada faixa de idade ou tipo de leitor, é aquele que você recomenda para quem quer ler algo expressivo e de qualidade.

A moradora de Wildfell Hall
Anne Brontë
Editora Lendmark

9 comentários:

  1. Hum...achei o livro muito interessante. Realmente as pessoas geralmente não curtem muito clássicos, mas não sabem o que estão perdendo. Ameii e vou guardar a dica de leitura.
    Beijos!
    Paloma Viricio- Jornalismo na Alma

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  2. Fico feliz que terminaste!
    Eu também gostei bastante do livro, da história. Embora eu ache que a escrita dela é a que menos me agrada entre as irmãs. Algo pessoal.
    Claro que a revisão porca do livro não ajudou porque você se irrita e tenta não passar isso para o texto do autor, mas é impossível, somos humanos.

    liliescreve.blogspot.com

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  3. Ainda não li livros dela, me bate!
    Mas não li mesmo, e admito que meu atual estado de preguiça acaba de barrar a minha possivel leitura deste livro, por ter palavras dificeis hahaha

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  4. clássicos sempre é um problema, assim como de filosofia, sociologia, leio muuitos esses temas e fico pensando em pôr no blog, mas eu acho que iria apanhar.

    Beijos *-*
    clicandolivros.blogspot.com.br

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  5. Acredita que não conhecia esse livro
    Mas estou vendo que estou perdendo muito
    Vou colocar na lista

    Beijos
    @pocketlibro
    http://pocketlibro.blogspot.com.br

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  6. Oi Denise,
    Nunca li nada da Anne Bronte, e para ser sincera eu prefiro os clássicos de Jane Austen, apesar disso achei a proposta do enredo interessante.

    *bye*


    http://loucaporromances.blogspot.com.br/

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  7. Por mais que o llivro tenha palavras dificeis é bom ler, eu me acostumei a enfrentar livros escritos de uma forma antiga.

    http://enfimshakespeare.blogspot.com.br/

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  8. Boa noite Denise,

    Não conhecia o livro e sua resenha me deixou bem curioso....vai para a minha lista....parabéns e abraços.


    http://devoradordeletras.blogspot.com.br/

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  9. Juro que não conhecia o livro, mas gostei da dica, pretendo ler este livro!

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