Resenha: O garoto da casa ao lado

16/10/2012


Em sua estreia literária, Irene Sabatini busca as lembranças de sua infância no Zimbábue para narrar uma história de amor e amizade que tem como pano de fundo a independência do país e sua degradação ao longo da década posterior. A tímida jovem negra Lindiwe Bishop não consegue esconder seu fascínio por Ian McKenzie, seu misterioso e audacioso vizinho branco, acusado de ter cometido um terrível crime. Os dois jovens se aproximam e constroem uma relação que atravessa os anos, lutando para sobreviver em uma África marcada pelas tensões raciais e pelas revoltas sociais. O garoto da casa ao lado é um potente romance sobre laços que se mantêm fortes e intactos, mesmo diante de uma realidade que parece fazer de tudo para quebrá-los.

O livro começa com a Lindiwe jovem, no inicio dos anos 80, quando o Zimbábue ainda não era independente e a separação racial era bem forte. Ian é um garoto branco vizinho de Lindiwe e que é acusado de ter matado a madrasta, ele fica preso durante um ano e quando sai, eles se tornam amigos. A narrativa é em primeira pessoa e dividido em 4 partes ou tempos, contando a estória de Lindiwe e seu envolvimento com Ian ao longo de sua vida.

A caracterização dos personagens é bem feita, principalmente para acentuar a diferença racial entre eles. Sabemos exatamente como ele são: o cabelo, a forma do rosto e a personalidade. Como um romance entre uma negra e um branco em um país marcado pelo preconceito, esse será um dos temas principais do livro. E o que marca a protagonista é o preconceito que ela mesma tem com si. A Lindiwe tenta de todas as formas mudar quem ela é e questiona o fato de Ian estar ao lado dela, é como se o amor não fosse o suficiente. Já Ian tem um instinto rebelde, de liberdade, o que ele quer fazer ele faz e pronto.

Se fosse para resumir esse livro em uma palavra seria tensão. O tempo todo parece que os protagonistas estão pisando em ovos, e consequentemente, nós também. A cada pagina nos deparamos com um conflito diferente, seja ele entre o casal ou com o país. A forma como a Lindiwe narra o livro já é um pouco tenso, pois é com ela que acontece tudo, então ela evita até de contar certos fatos e nos deixa, nesse caso, sem entender o que se passou, é como se ela sentisse demais e não conseguisse colocar isso para fora.

Os jovens veem todos aqueles Pajeros e também querem enriquecer rápido. Veem a corrupção e o roubo entre os mais velhos, então por que não eles? Por que têm de morrer de fome, sacrificar-se, ser panacas como seus pais? Por que têm que ficar para trás? Não. Sem chance. Vão botar as mãos no que desejam, rapidinho. Se o governo não lhes arruma empregos, vão se virar por conta própria.

Bom, a narrativa tem um mistério que marcará a leitura toda. Como está escrito na sinopse, Ian é acusado ter colocado fogo na madrasta enquanto ela dormia, ele foi preso, mas ninguém de fato sabe o que aconteceu. Essa duvida acompanha Lindiwe a vida inteira, ela pergunta a Ian o que houve só que ela recebe apenas respostas evasivas. Só descobrimos quem foi no fim do livro, porém, o modo como a autora solucionou esse assassinato não foi de forma clara, suponho quem seja o assassino, só que não tenho certeza.

O enredo é marcado por uma linguagem forte e muitas perguntas sem respostas. O que tem que ser dito, será dito sem o menor pudor, por isso, palavrões e descrição de cenas fortes são comuns na leitura. Ao ler determinadas coisas de forma tão aberta você se assusta, estamos tão acostumados com indiretas, tudo meio velado, que ao nos deparamos com preconceito, morte, fome e miséria jogados na nossa cara sem o menor cuidado ficamos desnorteados. Nos deparamos com as pontas soltas no começo do livro e isso acorre até o fim, o desenrolar do romance de Ian e Lindiwe também não é explicado, aliais, só percebemos que existe um romance na segunda parte da narrativa.

É um livro que recomendo para quem gosta de uma carga histórica pesada e uma leitura densa. São personagens humanos e que dizem o que pensam e sentem em um grau extremo. O romance existe, mas fica de lado a maior parte do tempo, devido ao excesso de temas sérios. Esse não foi um livro que consegui ler de uma vez, parei várias vezes porque me cansava em algumas partes e não entendia outras, a parte cultural no livro também é forte. Enfim, livro com ótimos temas e personagens, mas que deixa a desejar pela falta de conclusão em alguns pontos.

...eu parecia voltar sempre a um só ponto: ele é Ian, o garoto da casa ao lado, a pessoa que estou começando a conhecer.

O Garoto da Casa Ao Lado 
Irene Sabatini 
Editora Nova Fronteira

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