Resenha: @mor

24/10/2012


 
Num e-mail enviado por engano, começa um relacionamento virtual que testa as convicções de Leo Leike e Emmi Rothner. Leo Leike, ainda digerindo o fracasso de seu último relacionamento, responde de forma espirituosa a duas mensagens enviadas por engano por Emmi Rothner, casada. Inicialmente, ela só queria cancelar uma assinatura de revista. Depois, inclui Leo por engano entre os destinatários de um e-mail de boas festas. Na terceira troca de e-mails, o mal-entendido dá lugar à atração mútua, reforçada pelo fato de um nunca ter visto o outro. Nada como a curiosidade instigada por frases bem encadeadas chegando a intervalos regulares numa caixa postal eletrônica para que os dois se esqueçam dos possíveis impedimentos. 

A cada dia, Leo e Emmi se sentem mais impelidos a marcarem um encontro. Após trocas contínuas de mensagens, está claro para ambos que o marido dela e as feridas emocionais dele não serão obstáculos para que marquem um encontro. O único obstáculo real é a insegurança de ambos quanto à transformação da fantasia em realidade. A expectativa é uma faca de dois gumes e a realidade pode não estar à altura. 

A tradição dos romances epistolares, compostos exclusivamente de trocas de cartas, é antiga na literatura ocidental. O primeiro livro com estas características, o espanhol Prisão de amor, de Diego de San Pedro, data de 1485. No século 18, o gênero se tornou popular, com clássicos como Ligações perigosas, de Choderlos de Laclos, Clarissa, de Samuel Richardson, e O sofrimento do jovem Werther, de Johann Wolfgang von Goethe. O austríaco Daniel Glattauer dá nova vida à tradição epistolar em @mor, primeiro de dois romances que exploram um relacionamento sustentado basicamente em trocas de e-mails. Romance de estreia de Glattauer e campeão de vendas na Alemanha e na Espanha, o livro explora, sob roupagem moderna, sentimentos familiares a amantes de todas as gerações. 


Leo e Emmi se conhecem através de um erro por parte dela, ao enviar um e-mail pedindo o cancelamento de uma revista, acidentalmente ela envia para ele. A partir dai, os dois começam a se corresponder diariamente, trocando confidencias e a possibilidade de se conhecerem fora das telas. O que começa apenas com duas pessoas se conhecendo e virando amigos, passa a uma relação tensa, pois Emmi é casada e a ideia de conhecer Leo pessoalmente, mexe com os sentimentos dela.

O livro vai alternar entre e-mails da Emmi e do Leo, sendo assim, narrado pelos dois pontos de vista. Não existe nenhum tipo de diferenciação quanto a quem está narrado, você acompanha pelo sentido da conversa e por quem assina no final do texto. Se atenham mais no sentido, porque varias vezes eles trocam e-mails sem assinatura e muito dificilmente eles colocam o assunto. E como em todo e-mail, nós temos o horário em cada um, isso é coerente para que saibamos o tempo em que o livro se passa, em torno de um pouco mais de um ano.

Os detalhes físicos e psicológicos dos personagens são bem trabalhados no livro, logicamente que não conhecendo quem está do outro lado da tela, o tema a curiosidade apareceria. Temos explicações minuciosas sobre como a Emmi e o Leo são fisicamente: cabelo, rosto, o tipo de roupa, comida, viagens e muito mais. Eles realmente contam como eles são e vida que levam um para o outro. No decorrer da leitura percebemos que saber só algumas coisas não os satisfaz, eles precisam de mais e mais abertura, de mais e mais conhecimento sobre a vida do outro.

Pra mim, você é como uma segunda voz dentro de mim, que me acompanha durante o dia a dia. Você faz do meu monólogo interior um diálogo. Você enriquece minha vida interior. 

A imaginação é provavelmente o assunto mais abordado no enredo. Saber fisicamente como é uma pessoa que gostamos de conversar, de contar fatos da nossa vida é quase essencial, aquele famoso "dar um rosto", parece que só conhecemos alguém por inteiro, quando a vemos pessoalmente. O que é questionado no livro, é se a pessoa que eles conhecem por e-mail vai ter a aparecia que eles imaginam, e se isso for tão importante, o que vai acontecer caso as expectativas de um ou de outro, não sejam alcançadas? Não seria melhor então, manter tudo como está? Esses questionamentos são respondidos e eles caminham para o mais plausível.

Acredito que o sucesso desse livro seja exatamente pelo formato proposto, porque romances impossíveis já é um tema batido, mas ser em forma de e-mail, que é uma das formas de comunicação mais utilizadas hoje, foi o toque especial. Qualquer pessoa hoje tem acesso a bate-papos ou pode se enganar ao mandar um e-mail, então, a probabilidade de que aconteça com qualquer um o que acontece no livro é real. O livro é realista, os assuntos são do dia a dia, o que torna muito mais favorável e rápido o leitor trazer o enredo para fora das paginas e a empatia pelos personagens.

A leitura desse livro é fácil e dinâmica, não só por ter poucas páginas, mas a diagramação dele e o formato, por e-mails, favorecem que a leitura flua. A principio você imagina que por ser troca de e-maisl a linguagem seria superficial, mas não, temos varios diálogos interessantes e de alto nível. Na capa tem uma frase comentando sobre isso e concordo, eles se instigam as vezes, e das farpas saem as conversas mais inteligentes.

O livro só não ganhou 5 estrelas no skoob e a minha total simpatia pelo final. Não vejo necessidade quando os autores terminam seus livros de forma aberta, no qual a conclusão do primeiro livro se dará na continuação. Um fim com uma leve sugestão de uma continuação me agrada mais, nesse caso, a forma como termina é angustiante e me deixou até um pouco irritada. Ainda mais que por aqui os livros demoram tanto a serem lançados, é um pouco injusto, se tiver a oportunidade de ter o livro em inglês lerei porque a curiosidade está imensa. Fora isso, foi uma leitura rápida e gostosa.

Escrever é como beijar, só que sem os lábios. Escrever é beijar com a cabeça.

@mor 
Daniel Glattauer
Editora Suma de Letras

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Tecnologia do Blogger.