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As Panteras

14.11.19

As Panteras || Estreia em 14 de novembro de 2019
Crítica: Karla Nayra


Uma nova tecnologia criada para geração de energia limpa e sustentável pode se converter em uma arma se cair em mãos erradas. As Panteras precisam impedir que isso aconteça e descobrir quem está por trás desta grande ameaça. Você já deve ter visto ou ouvido essa história algumas vezes. A premissa do filme não é nenhuma novidade no meio escapista cinematográfico hollywoodiano. Mas o filme não é apenas sobre esse enredo formulaico, é também sobre o mundo feminino, sororidade, liberdade sexual. Para enxergar essa segunda temática e todas as suas complexidades é preciso um olhar ou pouco (só um pouquinho mesmo) além da história já contada muitas vezes.

Dirigido e escrito por Elizabeth Banks, o longa-metragem aposta em um discurso essencialmente feminista. A diretora deixa claro como será sua abordagem logo nas primeiras cenas no filme. “As mulheres podem fazer o que quiserem, quando quiserem e como quiserem” são frases que estão estão presentes ao longo de toda a trama. Mesmo no trailer, é possível perceber nas falas de Kristen Stewart, no papel da pantera Sabina, ideias de empoderamento feminino. Alguns críticos podem até reclamar do uso excessivo dos diálogos como recurso para expor essas ideias. Na maior parte das vezes eu também penso que é melhor mostrar do que dizer, afinal, o cinema possui uma infinidade de possibilidades a serem exploradas enquanto discurso.


Porém, nesse caso específico dizer significa mostrar de forma eficiente, pois é assim que acontece. Não que o filme deva ser um retrato da realidade, mas ele reproduz conceitos e preconceitos presentes na sociedade. Segundo pesquisadores do cinema, em especial o historiador francês Marc Ferro, o cinema é agente da história e portanto uma instituição que reproduz a própria realidade por mais fantástica que o roteiro possa ser. Entre uma história prosaica do cinema para diversão e uma ideologia ligada ao empoderamento feminino cumpre a função ao qual se propõe, diversão.

Há cenas de ação de tirar o fôlego e alívios cômicos interessantes. O elenco se mostra confortável nas cenas com destaque para Kristen Stewart que está realmente à vontade do papel. O roteiro nos traz uma reviravolta interessante e não comete o “pecado” de, sem querer, colocar o homem para salvar o dia no final das contas. Trata-se de um filme sobre mulheres, feito por mulheres e para mulheres. Mas é também muito convidativo para eles.

Um dia de Chuva em Nova York

Um dia de Chuva em Nova York || Estreia em 21 de novembro de 2019
Crítica: Karla Nayra


Certa vez Woody Allen disse, “meus filmes normalmente são mais apreciados na Europa do que nos Estados Unidos”. Tenho a impressão de que talvez não haja um lugar muito especial para mais autores em Hollywood. Sim, Allen é um exímio autor e Um dia de Chuva em Nova Yorque é mais uma prova disso. É possível reconhecê-lo em cada pedacinho da obra e por mais que o filme traga muitas questões internas acerca dele mesmo, a obra ainda consegue alcançar o espectador que aprecia sua cinematografia e toca sua alma de forma inédita.

Dirigido e escrito por Woody Allen, o longa acompanha o final de semana de um jovem casal em Nova Iorque. A grande protagonista do filme é a cidade que Allen já declarou amar mais de uma vez, Nova Iorque. O tempero especial é a chuva que serve como elemento narrativo para exprimir vários momentos: tensão; confusão; beleza; poesia; afeto. Para o autor, Nova Iorque sob a chuva é híbrida, sensorial. A metalinguagem é um recurso muito presente nos filmes de Allen e neste aqui não é diferente. Há um momento em que o diretor se mostra na figura de um novato numa rodagem despretensiosa pelas ruas de Manhattan, noutro momento nos é apresentado um diretor aclamado por seu trabalho, mas que sofre vários distúrbios e inseguranças com relação à sua obra. Esse é apenas um dos vários momentos em que Allen está falando de si próprio. Ele rememora os tempos de outrora quando realizava filmes de baixo orçamento sem maiores pretensões ou pressões e traz a insegurança de um diretor maduro.


Allen é meticuloso na construção dos personagens e não deixa nenhum passar sem algum detalhe marcante. Adoro a capacidade que o diretor possui de problematizar sobre banalidades da vida, dando a elas um peso maior do que elas realmente têm. É assim que, em muitos momentos, Allen nos convida a fazer reflexões sobre coisas que talvez jamais faríamos. No filme, ele faz isso com uma risada. Achei demais! Sem falar em uma revelação arrebatadora que nos deixa de boca aberta trazendo uma resolução, e também uma recompensa, surpreendentemente e engraçada. Não sei. Talvez somente eu tenha achado tanta graça. Sou fã!

Acho que já deu para notar que quando o assunto é uma obra de Woody Allen me pego numa vontade quase que irresistível de falar somente do autor. Mas não poderia cometer o pecado de não apontar as qualidades de toda a mison scene e a atuação do elenco. Afinal, cinema é uma arte coletiva, portanto se uma área falhar pode acabar colocando em cheque toda a obra. Em síntese, Um Dia de Chuva em Nova Iorque é um filme autoral com doses de obra autocentrada, mas nem de longe deixa contribuir enquanto obra de arte. Em vez disso, propõe reflexões densas sobre as banalidades da vida e sugere mais leveza sobre aqueles temas que poderiam se tornar grandes pesadelos.

O Farol

13.11.19

O Farol || Estreia em 2 de janeiro de 2020
Crítica: Helen Nice


Willen Dafoe está irreconhecível como Thomas Wake, um marinheiro rude, bruto e sofrido, que vive isolado em uma ilha que se resume a um rochedo com um farol precário no meio do oceano revolto. Um navio vem de tempos em tempos... quando as condições climáticas permitem. A sirene do navio ecoa fantasmagoricamente na mente do espectador. Ondas quebram nos rochedos criando um clima assustador. Gaivotas sobrevoam a ilha. Estamos em alguma época sombria no início do século XX. Imagine-se nesta situação (porque isto era real) e seu psicológico já não será o de um ser humano normal.

Ser só pode ser uma opção de vida, mas ser obrigado a viver isolado, ainda que por um período de tempo determinado ou alguns meses, à mercê das intempéries, já afetaria a mente de qualquer pessoa. Mas alguém teria que fazer este tipo de trabalho...manter o farol em perfeito funcionamento para guiar as embarcações e impedir acidentes. Seu ajudante anterior morreu sob condições suspeitas e não muito definidas. Wake contrata um novo ajudante para substituir o anterior. Chega à ilha o jovem Ephraim Winslow (Robert Pattinson), que a princípio parece não saber bem a situação que o aguarda. O acesso à torre do farol é vetado ao novato Winslow, que é obrigado a fazer todo serviço pesado e braçal. A torre se torna um lugar misterioso e ele fará de tudo para desvendar seus segredos, se tornando obcecado pelas luzes do pequeno cubículo.


Rodado em 35 mm e preto e branco, a película tem um ar noir da década de 1930 com um pé no moderno. Dois atores, um rochedo, um farol e várias referências à mitologia e crenças de mau agouro típicas das histórias de piratas. Longos diálogos bem escritos prendem nossa atenção causando tensão. Os dois atores dão um show de interpretação, magistralmente dirigidos pelo jovem Robert Eggers, com textos coescritos por Max Eggers. Segundo o próprio Eggers, em coletiva para a imprensa, ele já tinha em mente exatamente o que seria o filme e foi a escolha dos atores perfeitos que permitiu que O Farol se tornasse realidade.

Não se trata de um filme de terror, mas sim um horror psicológico criado em uma mente perturbada. Há momentos que fica a dúvida se o que está acontecendo é real ou apenas uma alucinação causada pela solidão e estresse. Os sons são aterrorizantes e envolventes. O excesso de álcool leva o pirata Wake às vias da loucura. Dafoe está perfeito no papel. Seu sotaque característico, trejeitos e olhares tornam o personagem real e convincente. Pattinson mais uma vez prova que amadureceu como ator e entrega um personagem consistente e bem trabalhado. O filme fez parte da Mostra Internacional de Cinema de SP e teve sua estreia adiada para início de 2020, com distribuição pela Vitrine Filmes. Aguarde!!

Ford vs Ferrari

12.11.19

Ford vs Ferrari || Estreia em 14 de novembro de 2019
Crítica: Helen Nice


Filme de corrida, baseado em fatos reais... e eu com aquele pré-conceito: é filme para fã, será que eu vou curtir? E, como diria minha mãe: mordi a língua! Curti e muito!! Filme feito para fãs de corrida e que vai conquistar os leigos também, como eu.

A história é a seguinte. Na década de 1960, a Escuderia Ferrari era a equipe de automobilismo da montadora Ferrari mais vitoriosa e bem sucedida, comandada por Enzo Ferrari (Reno Girone), era praticamente imbatível. Dominava o circuito das competições de longa duração como a tradicional 24 horas de Le Mans. Equipe afiada, excelentes pilotos e melhores carros faziam da Ferrari a dona da vez. A Ford já não ia bem das pernas desde que passou a ser comandada por Henry Ford II (Tracy Letts). Uma opção para tentar salvar a empresa seria se unir à Ferrari, mas quase para fechar o negócio Enzo muda de ideia e faz negócio com outra empresa. Henry Ford II fica possesso e ameaça sua equipe... ou alguém dá uma boa saída para a crise ou todos perderão seus empregos.

Surge uma ideia: criar um carro de corrida tão bom e competitivo quanto os da Ferrari. Um feito praticamente impossível... ou não! Entra em cena o ex campeão de Le Mans, Carroll Shelby (Matt Damon) afastado das pistas por motivos de saúde. Correr está em seu sangue, competir é sua vida. Obrigado a trabalhar rotineiramente como vendedor de carros não o faz feliz, ele precisa da adrenalina das pistas. Shelby promete o impossível a Ford. Criar, testar e levar para as pistas um novo carro em 90 dias. Mas para isso ele precisa de um piloto tão louco pelas pistas quanto ele. Ken Milles (Christian Bale) é este piloto. Um inglês briguento e impulsivo, com a fama de ser de "difícil trato". Mas é justamente esse temperamento intempestivo que faz de Milles um piloto excepcional. Equipe formada e começa toda aquela rotina de desenhos, layout, material, testes, competições e tudo que envolve o circo das corridas. Quem é fã vai vibrar! E eu que não sou (ou não era) também vibrei!


A narrativa é vibrante e dinâmica com baldes de adrenalina e toques de emoção. O ronco dos motores se mistura à trilha sonora, emoldurando uma fotografia bem produzida, figurinos e cenários da década de 1960 reavivando todo encanto das corridas da época. A excelente direção de James Mangold nos leva a viajar nas pistas. O roteiro de Jez Butterworth, John-Henry Butterworth e Jason Keller não traz nenhuma inovação, mas também não deixa nada a desejar. No geral, a história é bem contada, com diálogos bem escritos. As sequências de corridas estão bem produzidas e mesmo as feitas por computador estão bem convincentes. Impagável a cena em que Henry Ford II sente na pele o que um piloto enfrenta ao volante.

Christian Bale dá um show de interpretação com sotaque perfeito e personalidade depressiva e explosiva. Com sua esposa Mollie (Caitriona Balfe) e seu filho Peter (Noah Jupe) entrega cenas emocionantes. O mundo das corridas é uma disputa de egos e poder financeiro. Vencer Le Mans é demonstrar esse poder. Nem que para isso seja preciso jogar sujo e trazer à tona o que há de mais sórdido no ser humano. Ao final chegamos à conclusão que mais que um filme sobre carros e corridas, Ford vs Ferrari é um filme sobre amizade, relações humanas e disputa por fama e poder.

Sra. Fletcher || Tom Perrotta

10.11.19


Acabei solicitando esse livro para a editora meio por acaso, só lendo a sinopse e sem saber direito quem era o autor. Eu cheguei a ver o primeiro episódio da série da HBO que se baseou em outro livro dele, The Leftovers, mas não gostei. A premissa de Sra. Fletcher é sobre uma mulher divorciada que está sofrendo a síndrome do ninho vazio. No começo do livro Eve Fletcher deixa o único filho na faculdade e não sabe muito bem o que fazer agora, já que tem a casa para si e um monte de tempo para preencher. Ela não sai muito, não tem muitos amigos e nem um namorado. A vida está estacionada. Até que um belo dia, ela recebe uma mensagem anônima escrita: “Vc é minha MILF!”. Eu não sabia o que diabos era isso e ainda bem que o livro explica, seria, em termos não tão chulos, uma mãe gostosa.

Essa mensagem, no começo, não vai fazer muita diferença na vida de Eve, mas com o passar do livro ela vai pesquisar mais sobre o termo e vai entrar no mundo da pornografia. O romance vai abordar uma questão que normalmente é ligada aos homens. Na teoria popular, só homem gosta de pornografia, só que a Eve gosta de passar um tempo na internet olhando sites sobre o assunto e se sente mau por isso. Ela acha que é vergonhoso uma mulher gostar de ver sexo. Isso desencadeia outras situações, uma delas envolvendo um menino com a idade do filho de Eve e outra com uma mulher que trabalha para ela. É como se a Eve tivesse se redescobrindo agora que não é mais mulher de ninguém e nem mãe de ninguém. Pela primeira vez, em muito tempo, ela vai pensar no que realmente gosta e deseja.


O livro é narrado de duas formas: em terceira pessoa acompanhando vários personagens, incluindo a protagonista Eve, e em primeira acompanhando o filho dela, Brendan. Uma das formas que Eve encontrou para passar o tempo foi voltar a estudar. Ela pega uma matéria à noite e a professora é uma mulher trans. De forma superficial, o livro fala sobre a dificuldade que é para uma mulher trans ser aceita em sua pequena comunidade. Fala ainda sobre a aceitação da família e da descoberta da sexualidade nesse novo corpo. A mulher com quem Eve se envolve também narra a sua estória, que envolve estar estagnada depois dos 30 anos. Quem ler vai perceber que o livro é muito sobre isso, se sentir num momento que você não tem mais o que conquistar e como sair disso; de perceber que a vida pode te oferecer mais depois dos 30, 40, 50...

O outro personagem que também é importante é Brendan, que saiu da casa da mãe para a faculdade e chegou lá achando que tudo seria fácil, como era na escola. Brendan amadurece enquanto está na faculdade, só que meio que na marra. Sabe aquela ideia de bebedeira e festas que as faculdades americanas passam a impressão? Então, Brendan achou que seria dessa forma só que não. Ele vai mal nos estudos, perde os amigos e se envolve numa situação bem complicada. Eu vou falar melhor sobre o final do livro no próximo paragrafo, mas o final do Brendan não me agradou. Ele foi pelo caminho mais fácil. Claro, é uma escolha de cada um mas sei lá, ele tentou tão pouco o que se propôs e logo desistiu. Acho que pelo que a família investiu nele, ele poderia ter tentado mais. Quem ler vai saber do que estou falando.

Esse é um livro sobre cotidiano. Não acontece nada de muito mirabolante, tirando um fato envolvendo três personagens, mas fora isso é sobre a vida de Eve e sua reinvenção diante da vida que parecia tão sem graça. Eu dei 4 estrelas para ele no skoob porque o final não tem uma ligação boa com o restante da estória. É como se o autor precisasse dar um fim para esse cotidiano e fizesse isso de uma hora para outra, no último capitulo. Não é ruim, mas é abrupto. A série da HBO baseada nesse livro estreou em outubro e eu vi o trailer. Ele está bem mais sexual, como tudo que a HBO faz, do que o livro. Não sei se eu vou ver, mas se alguém for assistir saiba que só pelo trailer dá para perceber que tem mudanças significativas ente os dois.

Sra. Fletcher
Tom Perrotta
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